Publicado por: osvaldopalmeira | maio 6, 2011

Direita de raiz – KIM PHILLIPS-FEIN

De que água bebe o conservadorismo americano

RESUMO

A princípio uma reação ao Estado de bem-estar social e à crescente permissividade moral, o conservadorismo nos EUA ganhou novas feições nos anos 80 e hoje se impõe como força política. Origens e situação atual dessas ideias são objeto de estudos e de libelos direitistas que associam o Estado à morte e à destruição.

KIM PHILLIPS-FEIN
tradução PAULO MIGLIACCI

O DEPUTADO JOHN BOEHNER não ia gostar nada de ouvir, mas o velho aforismo de Karl Marx sobre a história primeiro acontecer como tragédia, depois como farsa, raras vezes foi tão válido quanto no caso do atual movimento conservador nos EUA.

A vitória republicana em novembro, que conduziu Boehner à presidência da Câmara dos Deputados dos EUA, foi vista como uma reversão de tendências históricas, mas na verdade se enquadra na revolta conservadora, que já dura meio século, contra a própria ideia de governo. Há 50 anos, quando Ronald Reagan percorria os EUA fazendo discursos bancados pela General Electric, denunciava a crescente carga tributária como um equivalente do socialismo; já os leais membros da John Birch Society1 tinham certeza de que o presidente Dwight D. Eisenhower era comunista.

É claro que os ultraconservadores dos anos 50 estavam errados; os progressistas de meados do século passado eram caçadores de “vermelhos”, e nada poderia estar mais distante de suas ambições do que o socialismo. Mas, pelo menos quando Reagan se batia em câmaras de comércio regionais e os membros da John Birch Society faziam suas intermináveis discussões, a alíquota mais elevada do imposto de renda era de quase 90%, a “Guerra contra a Pobreza” estava para começar e os planos públicos de saúde em breve passariam a atender idosos e pobres. Em outras palavras, existia um governo ativo do qual os conservadores podiam reclamar.

Hoje, as fulminações da direita sobre a expansão do Estado parecem imensa e insanamente desproporcionais diante das mornas ações do Partido Democrata, cujos membros não conseguem concordar nem mesmo sobre a revogação dos cortes de impostos decretados por George W. Bush. Quanto mais insípidos os progressistas se tornavam, mais vigorosas e malévolas eram as denúncias da direita.

ESTILO PARANOICO Na célebre descrição do historiador Richard Hofstadter (1916-70), os “pseudoconservadores” seriam habitantes de um mundo irreal, adeptos de um “estilo paranoico” de política. Seriam, na descrição de Hofstadter, almas perdidas, em decadência, desorientadas no mar da economia de consumo de massa que surgia nos EUA da metade do século 20, que fizeram de sua ira econômica um ataque irracional aos intelectuais e progressistas que consideravam responsáveis por seus problemas. Seriam vítimas do sonho americano, que não sabiam “quem ou o que são, nem a que pertencem, ou o que lhes pertence”.

De sua busca desesperada por status surgiu uma notável propensão a uma política maniqueísta do bem contra o mal, que tachou a elite de Washington como a incansável perseguidora das virtudes originárias das “small towns” americanas, as cidadezinhas espalhadas pelo interior do país.

Desde que Hofstadter escreveu seus ensaios, os historiadores vêm criticando seu tom desdenhoso e sua interpretação do conservadorismo como algo parecido com uma doença mental; seus detratores argumentam que ele errou seriamente ao dar uma imagem da direita como uma força em declínio na vida americana bem no momento em que ela estava prestes a conquistar o poder. Apesar das críticas, Hofstadter capturou, como poucos voltariam a fazer depois dele, a estranheza do movimento conservador e a maneira como este consegue criar a imagem de um país sombrio, sempre à beira de uma revolução ou algo pior. Será que os scholars modernos fariam melhor?

ECONOMIA E MORAL Veja-se o caso de David Courtwright, autor de “No Right Turn” [“Proibido Virar à Direita”, Harvard University Press, 320 págs., R$ 68,59]. Ao contrário dos muitos historiadores do conservadorismo que não vão além da eleição de Ronald Reagan (1911-2004), como se esta representasse o fim da história, Courtwright vem até o presente. Seu livro defende o argumento de que não houve uma verdadeira revolução conservadora na política americana. Os economistas conservadores “fracassaram em seu objetivo último, o de desarticular o New Deal e manter os gastos federais sob controle”, e os conservadores moralistas não foram capazes de “remover a permissividade de uma cultura saturada de valores dos anos 60”.

Entre as duas vertentes, porém, a direita econômica chegou mais perto de conseguir o que desejava. O ethos do mercado se enquadrava bem à sociedade permissiva que surgiu das mudanças sociais dos anos 60. O historiador sugere que, no início do século 21, os americanos tornaram-se “claramente mais tolerantes, profanos em termos de vocabulário, obesos e desleixados”, enquanto “as parcerias sexuais se tornaram um carrossel. Quem não gostar do cavalinho em que está montado pode descer e esperar um cavalinho melhor na próxima volta”.

Os conservadores venceram nas urnas, mas o partido do livre mercado não estava lá muito interessado em reverter a revolução sexual e a revolução moral. Nas palavras de Courtwright, “quando os brancos evangélicos desencantados desceram do ônibus do Partido Democrata e subiram no do Partido Republicano, descobriram que o destino era a praça do Mercado, e não a rua da Igreja”. Os conservadores, alega o autor, procuram unir os entusiastas do livre mercado aos tradicionalistas cristãos -um problema insolúvel, pois o capitalismo tende a erodir os valores caros aos conservadores religiosos.

Não existe modo de as duas vertentes do movimento conservador saírem ganhando ao mesmo tempo, e o resultado será que a direita moralista sempre resmungará contra as depredações que os empresários cometem contra a cultura, ainda que votem, gostando ou não, na direita econômica.

IRA E RESSENTIMENTO O extenso e ousado relato de Dominic Sandbrook sobre o populismo dos anos 1970 -apropriadamente intitulado “Mad as Hell” [“Fulo da Vida”, Random House, 496 págs., R$ 68,70] oferece uma visão diferente sobre o tema.
Sandbrook (um historiador britânico) abre o livro contando sobre a cena do filme “Rede de Intrigas” [“Network”, 1976] em que o apresentador de telejornal Howard Beale instrui o telespectador a “se levantar, ir à janela, abri-la, pôr a cabeça para fora e gritar: ‘Estou fulo da vida! Chega!'”. Começou no cinema, mas logo surgiram relatos sobre estudantes americanos abrindo as janelas em cidades universitárias e gritando a frase mágica. O sucesso da direita, argumenta Sandbrook, está intimamente ligado a essa ira populista mais ampla, com a repulsa a um governo distante das pessoas, a intelectuais pretensiosos e especialistas sabichões.

Sandbrook cita muitos outros exemplos. No condado de Kanawha, na Virgínia Ocidental, Alice Moore, dona de casa e mãe de quatro filhos, iniciou uma campanha contra a educação sexual nas escolas públicas locais que não demorou a se expandir e passou a incentivar o banimento de uma vasta lista de livros dos currículos escolares -da “Ilíada” a “Paraíso Perdido” e “Crime e Castigo”-, bem como poemas de Matthew Arnold e T. S. Eliot, vistos como mórbidos e deprimentes.

Não demorou para que milhares de crianças fossem mantidas em casa, em boicote às aulas; duas escolas sofreram atentados com bombas, outra com dinamite, duas pessoas foram baleadas nos piquetes e 15 bananas de dinamite explodiram nos escritórios do conselho escolar municipal poucos minutos depois do final de uma reunião (ninguém morreu).

Howard Jarvis, ex-jogador semiprofissional de beisebol, viajava pela Califórnia, muitas vezes discursando para “meia dúzia de pessoas numa sala de estar suburbana”, a fim de construir um movimento pela revogação de impostos sobre imóveis. As questões eram diferentes conforme o lugar, mas a ira e o ressentimento eram os mesmos.

O livro de Sandbrook capta um lado dos anos 70 -a fúria amorfa que parecia permear o país. Mas não se sai tão bem ao evocar o clima de depressão e desilusão da época, nem ao demonstrar as maneiras pelas quais o liberalismo frustrou as esperanças da geração do “baby boom”. Por uma geração, os americanos se acostumaram a esperar que, ao se tornarem adultos, teriam casa própria; que a cada ano mais pessoas teriam planos de saúde e de pensão; que as condições de vida melhorariam continuamente. A experiência dos anos 70 sugere que esse otimismo não tinha o menor fundamento.

Ainda que Sandbrook discuta as dificuldades financeiras, não chega a descrever o crescente desespero das vítimas econômicas da década. O livro oferece pequenas e impressionantes vinhetas da ascensão de uma insurgência populista, mas não explica como ou por que essa insurgência resultou num movimento conservador que realinhou a política americana por uma geração inteira.

E sua descrição da energia frenética dos anos 70 não capta algo que continua a assombrar nossa política: a forma com que sentimentos de decepção e perda -não apenas raiva- deram impulso para a virada do país à direita.

RELIGIÃO E ECONOMIA Será que esses relatos históricos oferecem alguma luz para entender o atual conservadorismo redivivo? Para muitos dos polemistas do conservadorismo contemporâneo, não existe distinção clara entre religião e economia. Eles veem um mundo econômico impregnado de valores e significado moral, e a fé como inextricavelmente associada ao capitalismo.

Para os mais temerosos desses conservadores, o Estado não está apenas passando dos limites, sufocando a economia ou limitando a livre-iniciativa -o Estado também é parte daquilo que a direita que trombeteia valores define como uma cultura da morte. O governo não pode ser representativo ou democrático; trata-se de uma força vampiresca e malévola, que faz do povo sua presa.

Essa visão melodramática do Estado malvado e parasitário transcende as divisões claras que Courtwright sugere. E não se trata apenas de palavrório populista, já que, para eles, um levante popular poderia, pelo menos em teoria, restaurar a devida ordem política.

Dois livros claramente dirigidos aos adeptos do movimento Tea Party demonstram até que ponto a direita atual adere a essa visão quase apocalíptica do governo.

ESTADO SOCIALISTA Ainda que evoque de forma menos sombria o mito fundador da nova direita, “The New Reagan Revolution” [“A Nova Revolução Reagan”, St Martins Press, 320 págs., R$ 59,52], de Michael Reagan -filho adotivo do 40º presidente dos EUA- abandona a lendária bonomia de seu pai e oferece um relato inflamado do panorama político americano atual: “Como previu meu pai, vivemos hoje num Estado socialista”.

Michael Reagan alerta para o nebuloso conluio inspirado pelas ideias do casal de sociólogos e ativistas Richard Cloward (1926-2001) e Frances Fox Piven, pesquisadores da pobreza e defensores da redistribuição de renda e da extensa regulação governamental sobre a economia. “A agenda da ‘mudança climática'”, escreve ele, “pode bem ser o maior, o mais rico e o mais sorrateiro de todos os tentáculos do polvo Cloward-Piven.” Muito embora o jovem Reagan descreva um país à beira do colapso, ele argumenta que o retorno à ortodoxia de seu pai pode salvá-lo. E exorta os simpatizantes do Tea Party a permanecerem no Partido Republicano, em vez de fundarem uma terceira agremiação.

MORTE Mais sistemático e também mais tenebroso, “Death by Liberalism” [“Morte pelo Progressismo”, Harper USA, 288 págs., R$ 59,52], de J. R. Dunn, indica até que ponto a situação se deteriorou em alguns quadrantes da direita atual.

Dunn não é um teórico da conspiração. É um descendente intelectual de Friedrich von Hayek, cujo “O Caminho da Servidão” (1944) apresenta o argumento de que os esforços progressistas por reformas resultariam inevitavelmente na criação de um Estado totalitário, pela necessidade de planejamento central, apesar das boas intenções dos reformistas. Dunn, no entanto, adota abordagem muito mais direta, argumentando que “o modelo progressista mata”. Os progressistas, diz ele, “estão entre os assassinos em larga escala mais ativos de nossa época, e superam com facilidade, em número de vítimas, a maioria das doenças fatais e o terrorismo”.

No final dos anos 90, estudiosos franceses publicaram o “Livro Negro do Comunismo”, no qual tentaram calcular o total de vítimas dos regimes comunistas no mundo. “Death by Liberalism” tenta fazer o mesmo com a nossa versão, mais amena, da esquerda.

DEMOCÍDIO De que modo Dunn consegue quantificar o custo em vidas de uma fé política? Para começar, inclui todas as pessoas assassinadas nos EUA nos 40 anos que se seguiram às decisões da Corte Suprema que concederam aos acusados de crimes o direito a representação legal (entre outros direitos) -foram 263.568 pessoas mortas “pelo progressismo”, caso você tenha curiosidade em saber.

Também conta todos os mortos por malária, doença que, segundo Dunn, teria sido erradicada, não fosse a insana cruzada da bióloga Rachel Carson (1907-64) contra o inseticida DDT.

A regulamentação das emissões de poluentes por automóveis -que tornaram desejáveis carros mais leves- resultou em algo entre 41,6 mil e 124,8 mil mortes, já que as colisões que envolvem carros menores tendem a ser mais fatais do que as que envolvem jipes militares como o Hummer (pelo menos para quem estiver dentro de um Hummer).

E, claro, a contagem de vítimas fatais só pode disparar se considerarmos os “milhões de crianças não nascidas” que foram assassinadas pelo aborto.

No final, chega a uma contagem de entre 400 mil e 500 mil americanos -ele deixa de fora os bebês não nascidos-, e os define como vítimas de um “democídio”, ou seja, destruição sistemática de vidas humanas pelo Estado.

Não seria preciso dizer que essa abordagem padece de diversos problemas lógicos. Mas o livro de Dunn é significativo porque aponta para um fenômeno político mais amplo, que vai além dos termos precários de sua argumentação: a infusão de uma moralidade severa com ideias libertárias e antigovernamentais.

O combate ao aborto não é mais apenas uma mobilização entre os cristãos -tornou-se também uma campanha libertária contra o poder do Estado. A regulação governamental não se restringe ao mercado -é, literalmente, uma questão de vida ou morte. O senador republicano Barry Goldwater (1909-98) exortava seus seguidores a estarem dispostos a morrer para proteger a liberdade. Para Dunn, se você não lutar pela liberdade, vai morrer. Os progressistas bem intencionados estão prestes a te pegar e te derrubar à bala.

LIMITAÇÕES Muita tinta foi derramada para descrever o moderno movimento conservador como uma coalizão irrequieta e desgostosa, criada mais pela oposição ao comunismo e ao progressimo do que por uma visão de mundo própria. Embora haja certa dose de verdade nessa caracterização, o livro de Dunn sugere as limitações inerentes ao movimento.

Para quem é de direita, a cruzada contra o governo está permanentemente associada à necessidade de proteger um mundo ordenado pelo divino. Mercado e igreja são companheiros próximos numa visão que reprova todo esforço consciente e coletivo para construir uma sociedade.

O que torna incomum alguém como Dunn não é sua dedicação apaixonada, e sim a ausência de qualquer visão positiva. Ele não escreve em nome do esforço de defender um mundo em perigo, mas simplesmente para expressar oposição a um Estado que é visto como destinado à destruição. Não há valores familiares ou verdades cristãs como os invocados por Courtwright. O governo parece ter se tornado não só precursor do despotismo, mas também do homicídio em massa, uma visão mais bizarra e mais extrema do que as que se leem nos relatos históricos de Courtwright ou Sandbrook.

Para compreender como o movimento conservador atual transformou um ponto de vista minoritário -que enxerga o Estado como uma violenta ave de rapina, tal como Hofstadter descreveu em meados do século 20- em uma sonora palavra de ordem, não basta ler sobre a direita -é preciso ir até a fonte.

Nota do tradutor
1. Associação de extrema direita nos Estados Unidos que defende a limitação da atuação do Estado e medidas “anticomunistas”, entre outros pontos.

Entre as duas vertentes, a direita econômica chegou mais perto de conseguir o que desejava. O ethos do mercado se enquadrava bem à sociedade permissiva que surgiu das mudanças sociais dos anos 60

Para os mais temerosos desses conservadores, o Estado não está apenas passando dos limites, sufocando a economia ou limitando a livre-iniciativa -o Estado também é parte daquilo que a direita define como uma cultura da morte

Para a direita, a cruzada contra o governo está associada à necessidade de proteger um mundo ordenado pelo divino. Mercado e igreja são companheiros numa visão que reprova todo esforço coletivo para construir uma sociedade

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: