Publicado por: osvaldopalmeira | maio 1, 2012

Lavoura de cacau sustentável na Bahia será exemplo na Rio+20

Valor produtivo em áreas de Mata Atlântica avançou 70% em quatro anos

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Plantações de cacau em fazenda do Sul da Bahia: expectativa que o valor da terra preservada seja maior que o do pasto<br />
Foto: Emanuel Alencar

Plantações de cacau em fazenda do Sul da Bahia: expectativa que o valor da terra preservada seja maior que o do pasto (Emanuel Alencar)

ILHÉUS (BA) — O passado de pujança do ciclo do cacau no Sul da Bahia, tema esmiuçado em obras de Jorge Amado, levará o nome de toda a região de Ilhéus à Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20. O cacau cabruca, um sistema de cultivo forjado há mais de dois séculos, que tem como base a preservação da Mata Atlântica numa região de alta biodiversidade, será apresentado no encontro como um exemplo de economia verde em franca ascensão no Brasil.

O valor produtivo da lavoura cacaueira no Sul da Bahia movimenta hoje R$ 800 milhões por ano e cresceu 70,8% de 2006 a 2010, segundo dados do IBGE. O desafio agora é manter a floresta em pé e, ao mesmo tempo, dar conta do apetite do mercado consumidor de chocolate, que avança em média 10% ao ano no Brasil.

Problemas encolheram plantações na região

A Costa do Cacau baiana, que viveu um boom produtivo no século XX, sofreu duro golpe no fim dos anos 80. Segundo o governo federal, somente de 1989 a 1994 foram perdidos 250 mil postos de trabalho. A disseminação de um fungo nas plantações, chamado de “vassoura-de-bruxa”, a manipulação do preço internacional do cacau e o endividamento dos agricultores foram devastadores. Hoje, de acordo com a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, a produção dos municípios na região é de aproximadamente 130 mil toneladas/ano, 67% a menos em relação aos anos de ouro, quando chegou a 400 mil toneladas.

— Queremos mostrar na Rio+20 que a Bahia vai desenvolver um sistema de conservação produtiva — diz o economista Eduardo Thadeu, consultor de desenvolvimento regional da Ceplac. — A região de Ilhéus tem capacidade instalada de 230 mil toneladas de moagem de cacau por ano. Mas produz apenas 130 mil. Por isso, importa da África de 30 a 50 mil toneladas/ano, desde 1994. Vai faltar 1,6 milhão de toneladas ano de cacau, a partir de 2020, em todo o mundo. Se a gente continuar ligado à lógica do cacau como commodity, com preço feito na bolsa de Londres, os produtores continuarão na situação complicada em que se encontram. Queremos vender o cacau orgânico, um produto especializado, com selo de certificação.

Apesar das dificuldades, 17% da mão de obra rural baiana está ancorada no cacau, o que representa 90 mil trabalhadores. É o principal estado produtor no país. O nome cacau cabruca tem origem curiosa e remete ao século XVIII. Estudiosos dizem que surgiu da expressão “vem cá brocar a mata”, um sinônimo para “abrir espaço para o cacaueiro na Mata Atlântica”.

Cerca de 70% das lavouras cacaueiras do Sul da Bahia — ou 260 mil hectares — funcionam no sistema cabruca. A lógica é plantar o cacau consorciado às árvores da Mata Atlântica, como jequitibás e ipês. As mudas de cacau precisam de sombra para se desenvolver. Enquanto o sub-bosque dá lugar aos cacaueiros, as árvores adultas, que também ajudam na captação de carbono, são mantidas. Recente pesquisa publicada na revista “Biodiversity and Conservation” mostrou que 16 hectares de cacau cabruca abrigavam 216 espécies nativas florestais.

Fortalecimento do modelo cabruca em lei

Em dezembro de 2011, o governo da Bahia editou a lei 12.377, alterando a Política Estadual do Meio Ambiente. O texto ressalta a importância de fortalecer o modelo. Ainda em maio, representantes do Banco Mundial devem visitar as lavouras de Ilhéus. Superintendente da Ceplac da Bahia, Juvenal Maynart diz que em três anos o Brasil deixará de ser importador de cacau. O agricultor Pedro Antônio da Rocha Mello, aguarda novidades:

— Hoje o valor de uma área de pasto aqui na Bahia é maior do que uma plantação pelo sistema cabruca. Esta lógica tem que mudar — afirma.

*O repórter viajou a convite do Ministério da Agricultura

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